A vitória eleitoral de Barack Obama abre uma janela de oportunidade para se reconstruir o relacionamento transatlântico. Na Europa, as expectativas geradas em volta do futuro presidente neutralizaram a hostilidade recentemente manifestada em relação à actuação externa de Washington. Nos Estados Unidos, aceita-se agora a necessidade de se desbloquear os constrangimentos que marcaram a política externa dos últimos anos. Ao mesmo tempo, a crise financeira e económica evidencia a interdependência que amarra europeus e americanos, desacreditando assim a sugestão de que se pode fortalecer a Europa se se prosseguir uma política de afastamento (ou, nas versões mais extremas, de confronto) relativamente aos Estados Unidos. Independentemente das diferenças existentes entre europeus e americanos, sobrepõem-se um conjunto de interesses, valores e preocupações comuns.
A sustentabilidade futura da relação transatlântica passa pela resolução quatro grandes desafios.
Primeiro: travar a deterioração político-militar no Afeganistão. A degradação da situação levou Obama a afirmar que pretende transformar o teatro afegão no centro da luta contra ao terrorismo, pelo que irá reforçar o contingente militar da NATO no país. Esta intenção de aumentar a contribuição europeia para a Aliança Atlântica enfrentará resistências por parte de alguns países europeus que mostram relutância em envolverem-se num esforço cada vez mais incerto. A solução reside pois num compromisso em que os Estados Unidos reconhecem os constrangimentos políticos enfrentados por alguns países europeus e que a União Europeia reconhece que terá de fortalecer a sua contribuição para a NATO. Uma vez que o eventual fracasso da Aliança Atlântica teria repercussões nefastas para a segurança do espaço europeu, impõe-se um entendimento célere quanto ao problema afegão.
Segundo: estabilizar a crise financeira e evitar uma recessão prolongada. O contágio verificado nos mercados financeiros demonstrou que as ligações financeiras e económicas entre as duas partes do Atlântico exigem a cooperação entre os dois lados. Após a estabilização da crise de liquidez, europeus e americanos terão de definir novas regras e, eventualmente, novas instituições para tornarem as interacções financeiras e comerciais mais previsíveis. Dado que a prosperidade transatlântica passa pela manutenção do comércio livre, a coordenação transatlântica evitará a introdução de políticas proteccionistas que, no passado, provocaram efeitos nefastos.
Terceiro: evitar a nuclearização do Irão. A aquisição de armas nucleares por parte do regime de Teerão comprometeria a segurança do Médio Oriente na medida em que daria origem a uma corrida ao armamento nuclear na região. A nuclearização aumentaria a probabilidade de um conflito apocalíptico, como também dificultaria o acesso aos recursos estratégicos da região.
Quarto: iniciar um fórum para definir soluções para o problema das alterações climáticas e da transição para uma economia pós-petroleo. A questão ambiental não é separável do problema energético, pelo que não faz sentido continuar a pensar as políticas ambiental e energética isoladamente. A dimensão do desafio – e a sua urgência – requer soluções conjuntas que salvaguardem a sustentabilidade da economia transatlântica.
Estes quatro desafios obrigam a uma crescente coordenação político-diplomática entre europeus e americanos. Os países europeus terão de assumir obrigações e responsabilidades que, no passado recente, preferiam evitar. Aos americanos, exige-se o aprofundamento da cooperação e uma maior partilhada da liderança internacional. Os dois lados terão de superar as brechas criadas nos últimos anos, e aceitar que, face às novas realidades resultantes da globalização e das mudanças geoestratégicas, partilham um destino político comum. |