| O valor da democracia |
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O actual governo socialista apresentou-se ao país como sendo reformista. Era preciso salvar o Estado social e, nessa medida, as reformas de sectores essenciais das políticas públicas tornaram-se indispensáveis. Tanto no sistema judicial, como na saúde e na educação, o governo foi apresentando alterações que queria fossem de fundo. Fê-lo em nome do bem comum, contra os interesses instalados das diferentes corporações e, numa estratégia que conduziu ao confronto, falhou redondamente. Na verdade, a pouco menos de um ano do fim da presente legislatura, as reformas ficaram aquém do pretendido. Podia ter sido diferente? Será que a democracia portuguesa não se coaduna com uma política reformista, não admite mudanças que tenham em vista uma melhoria significativa do nível de vida das pessoas, facultem aos cidadãos um melhor sistema de saúde, melhor educação, um sistema judicial que proteja as pessoas de quem não honra os compromissos contratuais, que seja um alicerce de uma vivência social civilizada. São questões difíceis, mas de resposta fácil: Sim. Podia ter sido diferente. E sim, em democracia é possível reformar. É possível que os cidadãos aceitem reformas que prejudiquem os seus interesses imediatos, mas que os beneficiem a longo prazo. Com diálogo, paciência, perseverança, um programa de governo bem estudado, bem preparado e explicado, é possível. Acreditar no oposto, que a democracia não se harmoniza com a ideia de desenvolvimento, não só é ofensivo à nossa natureza humana, como contraria a experiência demonstrada por outros países. Uma experiência que nos mostra que apenas em democracia se consegue melhorar a vida das pessoas. Que nas ditaduras a estagnação económica, política, cultural e humana é um facto a que não se pode fugir. O que a experiência nos demonstra à exaustão é que sem liberdade empreendedora, não há desenvolvimento. Sem desenvolvimento não surgem oportunidades, nem desafios para serem vencidos. A vida estagna e entristece. Apenas numa sociedade livre, verdadeiramente democrática, sem barreiras à criatividade humana, existe maior variedade profissional, mais escolhas e maior troca de interesses e conhecimentos. Há sempre uma janela aberta onde menos se espera. É aliás o conhecimento, que nos permite ver a realidade em perspectiva e de forma isenta. Nesse sentido, um sistema educativo que ensine verdadeiramente os alunos, acompanhe os pais na transmissão de seus valores, integre os professores e as escolas nesse esforço, é indispensável. O ónus não está, pois, apenas no governo. Trata-se de uma escolha a ser feita por cada um de nós. A dificuldade da liberdade, e é isso que a torna atractiva, está neste ponto. Na visão de uma vida superior àquela que cada um pode ter sozinho. Numa vida em comunidade, enriquecedora e livre.
André Abrantes Amaral |